quarta-feira, 6 de março de 2013

Violência: mais um dos malefícios do crack



Manoela Silva de 17 anos, é uma filha corajosa. Não são todos que tem a coragem de denunciar a violência contra a mulher, principalmente denunciar o próprio pai, Josué Silva. Ele, batia na mãe, Eliete da Silva, e o motivo era o crack.
A jovem conta que ele sempre usou outros tipos de droga, como a maconha. “Ele era pescador, ia para Santos e lá, como os pescadores ficavam muito tempo no mar, acabavam usando a maconha para relaxar”.
Josué chegava a ficar oito meses em alto-mar, enquanto Eliete cuidava da peixaria da família e dos filhos. “Na gravidez do meu segundo filho, o Josué nem acompanhou. Eu estava grávida de quatro meses e ele foi para Santos, quando voltou já tinha ganhado o bebê”, comenta Eliete.
Há cinco anos, Josué, que estava com 50 anos, descobriu um tumor no cérebro. Eliete ficou nove meses em Florianópolis cuidando do marido, que estava internado. Todos achavam que ele não iria sobreviver, entretanto, após o tratamento, ficou curado.
Depois da recuperação, Josué começou a usar crack. Ele, que até então era uma pessoa querida e calma, tornou-se agressivo e passou a espancar a mulher. “Lembro a primeira vez que aconteceu: eu estava no guardando peixes no freezer, quando ele veio por trás e me pegou pelo pescoço”. No momento, a filha caçula Manoela que chegou em casa e viu a cena, pediu ajuda ao irmão: “Mano, o pai tá matando a mãe!” A situação desesperadora só terminou quando Eliete deu um chute no marido e conseguiu soltar-se. Depois desse episódio, as agressões tornaram-se mais frequentes.
Como Manoela é a única que morava com eles, sempre presenciava os fatos. “Eu já fui até a delegacia de bicicleta e ninguém me ajudou, eu não sabia o que fazer”, desabafa a caçula.
A jovem, que hoje estuda no terceiro ano do ensino médio e se prepara para prestar vestibular para o curso de Psicologia, participava do coral na escola, coordenado por Roseli Stain, assistente social de Tijucas.
Certo dia, depois de uma palestra sobre drogas, ministrada por Roseli, Manoela resolveu se abrir e desabafar: “A Manô começou a chorar depois da palestra e me contou a história que passava na casa dela”, diz a assistente social. “Então, conseguimos convencer a mãe dela que a melhor forma era denunciar o marido. Afinal, a lei Maria da Penha serve para isto”, complementa.
Com a ajuda da profissional, a família conseguiu colocar o pai para fora de casa. Eliete e Manoela ficaram com a casa e com o carro, enquanto Josué ficou com o barco e uma casinha bem próxima à residência.
Mesmo oferecendo uma casa ao marido, Eliete ainda deve R$ 60 mil para Josué, que serão pagos em 10 vezes de R$ 6 mil, por ordem do juiz.
Eliete diz que já pagou mais que isso, até porque Josué vive extorquindo-a. “Eu já dei dinheiro para ele reformar o barco, comprei móveis novos e ainda dou comida para ele. Esses dias ele deixou dois eletrodomésticos estragados na porta da minha casa para eu arrumar, sem contar que ele sempre vem me pedir dinheiro e eu dou. Ele diz que é para comprar comida, depois descubro que ele queria mesmo é comprar o crack”.
Mãe e filha contam até com bom humor algumas situações presenciadas por elas enquanto o pai está sob efeito da droga. “A gente tem que rir para não chorar em algumas situações. Esses dias ele veio aqui perto do almoço, e nós estávamos comendo. Ele fez aquela cara de cachorro sem dono. Ficamos com pena dele e falamos pra ele ficar”.
Seguindo os caminhos do pai, o irmão mais velho de Manoela, de 32 anos, que mora em São Joaquim, também usa a droga quando vai para Tijucas. “A diferença entre o meu pai e o meu irmão, é que o mano consegue parar quando ele quer, o pai não.”


* Este texto foi um trecho do Trabalho de Conclusão de Curso das acadêmicas Daniela Wazburiech e Luana Pacheco, do Curso de Jornalismo, do Centro Universitário Estácio de Sá.